SÃO PAULO - O par é perfeito na solução de problemas, simulações e desenvolvimento.
Quando se fala em Física, é comum vir à cabeça imagens de raios, ímãs, bomba atômica e Einstein com a língua de fora. Nem é preciso muita imaginação para pintar o físico como um cientista descabelado, inventando coisas como a máquina do tempo.
Nada mais distante da realidade. Com formação calcada em raciocínio lógico, matemática sofisticada e resolução de problemas, o físico se dá bem em várias áreas, especialmente em TI. No ramo dos bits e bytes não faltam físicos desenvolvendo sistemas complexos para simulação de eventos na indústria e projetos de hardware inovadores.
O desenvolvimento de circuitos embarcados na empresa 3WT ocupa os dias de trabalho de André Muezerie, 29 anos, especialista em redes e doutor em Física Computacional pelo Instituto de Física de São Carlos, da Universidade de São Paulo (IFSC-USP). E ele nem precisou pedir emprego: “A empresa é que foi à universidade procurar alguém com o meu perfil”, conta Muezerie, que já recebeu propostas de outras companhias. Não foi à toa. Sistemas embarcados exigem conhecimento multidisciplinar, envolvendo eletrônica, programação e construção do firmware, o que dá certa vantagem ao físico sobre carreiras específicas de TI, por ser preparado para buscar informação onde estiver.
MÚLTIPLA ESCOLHA
A maioria dos físicos segue carreira acadêmica, como pesquisador ou professor. Os que buscam colocação nas empresas se distribuem nas áreas mais diversas. A física médica foi a opção de Aluísio José de Castro Neto, 29 anos, graduado pela USP de São Paulo. Ele planeja o tratamento radioterápico de tumores, baseando-se nas imagens digitais médicas que trafegam pela rede do Hospital Sírio-Libanês. O que aprendeu de programação na Física o ajuda a trabalhar com o fabricante na adaptação do software dos aparelhos.
TI entrou por necessidade na rota de Fernando da Silva Rodrigues, 44 anos, físico e gerente de soluções de TI para as áreas de exploração e produção de petróleo da Petrobras. Graduado pela UFRJ, Rodrigues se dedicou a TI ao fazer pós-graduação. “Eu precisava de muita computação para resolver equações e implementava em Fortran, C e Pascal”, diz. Fez Análise de Sistemas na PUC-RJ, mas se afastou dos bits e bytes para trabalhar como geofísico na Petrobras. Mais uma vez, a necessidade de resolver problemas o trouxe de volta a TI, de onde não pretende mais sair.
Uma das razões que levam os físicos para TI é a falta de regulamentação da profissão no país. Também por isso, não há estatísticas sobre atuação, emprego e salário dos físicos brasileiros. Em geral, os vencimentos vão da média ao pico de mercado, de acordo com a função.
A situação no exterior é outra. Nos Estados Unidos, líderes em tecnologia, o físico desfruta de uma profissão bem remunerada, que ocupa o quinto lugar no ranking do Departamento do Trabalho — perde para médicos, pilotos, dentistas e advogados. A indústria americana absorve mais de um quinto dos doutores em Física, 46% deles em pesquisas de curta duração, e paga cerca de 100 mil dólares por ano, em média, segundo levantamento do American Institute of Physics.
A possibilidade de ingressar no pelotão de elite internacional, ganhar experiência e ter um salário superior ao daqui animou Marcello Hasegawa, 33 anos, a mandar seu currículo para uma empresa americana de software há três meses. A graduação em Física pelo IFSC-USP, o mestrado no ITA e a experiência em programação com C++ encheram os olhos dos recrutadores e deram início ao processo de contratação duas semanas depois de enviado o currículo. “Se tudo der certo, embarco no final do ano, depois de terminar o projeto de interface em que estou envolvido”, diz.
COMO CHEGAR LÁ
A graduação em Física tradicional tem sido, há décadas, o caminho em direção a TI. Algumas faculdades oferecem uma formação mais dirigida à computação na metade do curso ou na pós. Os bacharelados em Física Computacional são moscas brancas: há um curso no IFSC-USP, criado em 2005, e outro na UnB, a Universidade de Brasília. Nesses cursos superpuxados o aluno aprende a usar métodos numéricos para solucionar várias classes de problemas. Mas é preciso gostar muito de Física para enfrentá-los e encarar cursos complementares, se a idéia for trabalhar com computação mais corporativa.
HALL DA FAMA

TIM BERNERS-LEE - Inglês, filho de matemáticos, o inventor da World Wide Web fez Física na Universidade Oxford. Lá, chegou a construir um computador.

EMANUEL DERMAN - Sul-africano, Ph.D em Física, Derman projetou a linguagem HEQS, precursora do Visicalc. A fama veio com um modelo matemático para finanças.

JOHN BARDEEN - Com William Shockley e Walter Brattain, o físico americano construiu, em 1947, o primeiro transistor. Ganhou dois prêmios Nobel por suas pesquisas.
<p><a href="" rel="bookmark" title="INFO Online">Físico combina com TI?</a>, Lucia Reggiani, edição de março de 2007 - SÃO PAULO - O par é perfeito na solução de problemas, simulações e desenvolvimento.
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