SÃO PAULO - Bangcoc, Oslo, Jericoacoara? Pouco importa o destino. Há cada vez menos limites para os serviços de localização.
1 - Sexta-feira, 12 de janeiro. A nove quilômetros do acidente da obra do metrô, em São Paulo, técnicos da empresa de rastreamento Ituran identificam a latitude e a longitude da van soterrada a cerca de 30 metros de profundidade. O veículo era monitorado por radiofreqüência.
2 - Caminhada pela praia? O carioca Paulo Maurício Ribeiro, de 57 anos, não sai sem um GPS. Nada de indicar rotas. A idéia é acompanhar dados como velocidade, distância e tempo de percurso. Em casa, ele sincroniza o GPS com o PC e tem um relatório completo dos exercícios.
3 - Em telas de 17 e 19 polegadas, geógrafos monitoram as áreas de preservação ambiental de Uberlândia, em Minas Gerais. O banco de dados carrega 40 GB de imagens e mapas.
4 - Qualquer um pode incluir sua própria casa, em três dimensões, no Google Earth. É só sacar a ferramenta de desenho 3D Google SketchUp. Se as ambições do arquiteto virtual não pararem por aí, que tal arriscar o Coliseu de Roma, a Sagrada Família de Barcelona ou o Farol da Barra de Salvador?
Exemplos tão heterogêneos quanto as quatro situações mostradas acima ilustram como os serviços de mapas e localização estão invadindo o dia-a-dia. Do viciante Google Earth aos complexos satélites do sistema GPS, as aplicações são ilimitadas. Vão da criação de rotas de trânsito e do monitoramento de frotas a garantidas horas (dias e até anos) de diversão no PC. Que o digam os mais de 200 milhões de internautas que já baixaram o Google Earth e têm acesso na ponta do mouse a um conteúdo de cerca de 10 petabytes. Ou os 12 milhões de assinantes de serviços de localização por GPS espalhados pelo mundo, segundo a consultoria ABI Research. O número está em progressão aritmética. Em 2011, serão 315 milhões.
De fato, o GPS deixou de ser uma tecnologia de nicho reservada a esportistas, navegadores, empresas de rastreamento e companhia. Está não apenas nos PNDs (Personal Navigation Devices) de fabricantes especializados como a americana Garmin e a holandesa Tom Tom quanto em celulares, smartphones e carros que saem da linha de produção com o recurso.
Um dos benchmarks nessa área é a Europa. Em alguns países, o GPS se tornou um opcional comum nas locadoras de carros. E não é difícil topar com um taxista que carregue o aparelho. No Brasil, um early adopter dessa categoria é o paulista Edmur Cenello Jr., de 44 anos. “Nunca tinha trabalhado como taxista e fiquei perdidão”, afirma. Usuário do MapLink Destinator, da MapLink, ele diz que o dispositivo virou vantagem competitiva. “Antes, eu sempre ficava parado no mesmo ponto de táxi no Jabaquara, onde moro. Passei a circular mais”, afirma.
O empresário Renato Mendes de Brito, de 39 anos, estreou no GPS em outubro passado. Usa seu Navegador Guia 4Rodas, da Editora Abril, tanto em compromissos pessoais como no trabalho. Dono da SM Pizzas, no bairro paulista de Santo Amaro, ele saca o aparelho nas entregas mais complicadas. Não são apenas os seis motoqueiros da frota que disputam o GPS. “Até a minha esposa me pede emprestado”, diz.
Adepto do GPS há cinco anos, o profissional de edição de vídeo Paulo Maurício Ribeiro não desgruda de seu aparelho Garmin. Ele já está no quarto dispositivo. Além de monitorar os exercícios, Ribeiro não se cansa de encontrar novas possibilidades para o GPS. Fundador de uma comunidade sobre o assunto no Orkut, levantou uma lista de 36 práticas inusitadas. As opções vão de encontrar o carro num estacionamento ao ar livre (perde-se o sinal em ambientes fechados) a medir grandes áreas sem usar uma trena. “Não sei como as pessoas conseguem viver sem GPS”, diz Ribeiro.
A queda de preço dos chips GPS — do patamar dos 30 dólares para cerca de 10 — é um dos fenômenos que está por trás da massificação dos equipamentos. Empresas de tecnologia como a HP, a Sony, a Panasonic e a Pioneer invadiram a praia da Garmin e da Tom Tom. Surgiram também novos competidores com preços agressivos, caso da taiwanesa MiTAC.
Seja qual for a vocação do hardware, a convergência rola solta nos navegadores. A ordem é virar uma central de entretenimento, com recursos como players de MP3 e vídeo. Nos serviços, uma tendência que se vê nos Estados Unidos e na Europa — ainda não disponível no Brasil — é o monitoramento de trânsito em tempo real, o TMC (Traffic Message Channel). Por meio de ondas de FM, os dispositivos exibem informações sobre vias congestionadas e podem sugerir rotas alternativas.
Da web para o GPS
Boa parte do conteúdo que roda nos sistemas de navegação brasileiros deriva de serviços veteranos da web — e até do papel. É o caso do Navegador Guia 4Rodas, que usa o sistema Destinator, da MapLink. Num dispositivo Mio C310, da taiwanesa Mio Technology, com tela touch screen, mapeia 70 cidades brasileiras e traz opções como bares, restaurantes e postos de gasolina. Por meio do GPS, dá para pesquisar, por exemplo, a cantina mais próxima de onde se está. O dispositivo custa 2 299 reais. A MapLink também oferece o serviço para quem quer usar seu próprio Pocket PC, sem comprar um novo hardware. A assinatura custa 399 reais ou 899 reais com o módulo de GPS conectado por Bluetooth.
Um dos nomes estrelados da web brasileira, o Apontador vende conteúdo para handhelds das plataformas Palm e Pocket PC. Mas é na web que estão algumas das inovações mais quentes. Para entrar na era da web 2.0, o serviço passou a usar a tecnologia Ajax e aderiu ao conceito de comunidade — permite aos internautas vincular aos trajetos pontos de interesse e notícias. “Queremos ser a Wikipedia dos mapas”, diz Rafael Siqueira, CTO e um dos fundadores do Apontador.
O smartphone dá a rota
Fabricantes de smartphones preparam a municação para ganhar mercado. A Nokia, por exemplo, comprou no ano passado a startup alemã gate5, especializada em software de navegação para dispositivos sem fio. Segundo os dados da consultoria Strategy Analytics, 16 milhões de telefones inteligentes sairão de fábrica com GPS em 2010, o que vai corresponder a 25% dos dispositivos portáteis de navegação. A consultoria não prevê o fim dos dispositivos dedicados. Longe disso: diz que serão vendidos 42,4 milhões em 2010.
As aplicações para celular começam a despontar no Brasil. Operadoras como a Vivo e a Nextel já oferecem serviços de localização no próprio aparelho. Outro exemplo é o u.find, da paulista Kwead.com. Desenvolvido em J2ME, traz para a tela dos telefones GSM rotas e mapas de cidades de São Paulo, Rio e Belo Horizonte. Para os paulistas, também há conteúdo sobre bares, restaurantes e cinemas. As informações estão integradas com o Google Maps, cuja API está liberada. “Misturar os serviços dá um tempero para as rotas. O mashup é uma tendência na localização”, diz Renato Sertório, sócio-diretor da Kwead.com.
As empresas profissionais de rastreamento também miram os serviços no celular. A mineira Crown Telecom trabalha num sistema para que administradores de frota acompanhem a localização de seus veículos pela tela do telefone. Baseado em GSM/GPRS, o serviço usa duas ferramentas: o MapPoint, da Microsoft, que é voltado para empresas, e o Google Maps.
A paulista USS, que presta serviços de assistência a seguradoras em 11 cidades do país, é outra que aderiu às bases do Google Earth. Usando a tecnologia J2EE, integrou-a com os sistema do MapLink. A aplicação determina o guincho que está mais próximo do segurado. “Com o uso de ferramentas desse tipo e o GPS nos guinchos, nosso tempo de atendimento caiu de 45 para 25 minutos”, afirma Rafael Romanini, superintendente de operações da USS. Na sala de controle, os mapas são exibidos em oito monitores de plasma de 42 polegadas.
No governo, os sistemas de georreferenciamento ganham novos usos. Em Uberlândia, Minas Gerais, a tecnologia estreou em 1998 para demarcar as vias da cidade e as áreas de preservação. Mas hoje virou ferramenta até para conferir a cobrança de IPTU. Pelas fotos aéreas e de satélite, os técnicos podem flagrar aqueles moradores que andaram ampliando a construção e não informaram a prefeitura, o está ajudando a aumentar a receita com o imposto. Além disso, houve ganho de produtividade. “Pela coloração da foto dá até para saber se o solo é úmido ou não”, diz Cláudio Guedes de Oliveira, secretário de Planejamento Urbano e Meio-Ambiente de Uberlândia. No software, a base do sistema é o MapGuide, da Autodesk.
Os donos dos mapas
Do Google Earth e do Live Search Maps, da Microsoft, aos navegadores pessoais, boa parte do conteúdo de mapas digitais e fotos sai de duas potências: a belga Tele Atlas e a americana Navteq. É um trabalho complexo. “Para cada localidade, é preciso obter o maior número de dados possível”, afirma Alexandre Derani Jr., diretor da Digibase, que representa a Tele Atlas no Brasil. Informações extraídas de fontes como mapas turísticos, guias de CEPs, listas telefônicas e plantas da cidade são consolidados pelas equipes. Os técnicos também vão para as ruas colher material equipados de GPS, notebooks e câmeras digitais. Somam-se a isso as fotos aéreas e de satélite compradas de outros fornecedores ou tiradas dos acervos do governo.
Conforme os territórios vão sendo mapeados, surge espaço para sofisticar os recursos, como mostram as últimas versões de programas como o Google Earth e o Live Search Maps. Entre a turma do Google, um dos frissons mais recentes é a criação de casas e prédios em 3D com a ferramenta SketchUp, desenvolvida por uma startup comprada pelo Google no ano passado. Depois de criar uma construção, é possível publicá-la no Google 3Dwarehouse (http://sketchup.google.com/3dwarehouse). Assim, qualquer um poderá baixá-la no Google Earth.
No último ano, o próprio Google acrescentou ao programa mais de 100 mil prédios em 3D espalhados por 38 cidades dos Estados Unidos. As construções começaram a ganhar textura, com aparência cada vez mais próxima da real. “Vamos explorar o Google Earth em vários dispositivos”, disse à INFO Michael Jones, CTO (Chief Technology Officer) do Google e um dos fundadores da Keyhole, que desenvolveu a tecnologia usada no Google Earth. Um dos exemplos é a versão do Google Maps para celular, disponível em www.google.com/gmm.
No Brasil, construções como o Cristo Redentor, no Rio, o edifício Copan, no centro de São Paulo, e o Estádio Couto Pereira, em Curitiba, foram incorporadas ao Google Earth. Na equipe de desenvolvimento do programa, impera a formação heterogênea. Há desde cartógrafos e especialistas em bioengenharia a profi ssionais de computação gráfica e design de hardware.
As três dimensões também estão por trás de alguns dos recursos mais impressionantes do Live Search Maps da Microsoft. Seattle e Las Vegas são duas das 15 cidades que ganharam detalhes na renderização de prédios. Para compor as construções em 3D entram em cena ferramentas como o Photosynth, da própria Microsoft, criado em colaboração com a Universidade de Washington. As imagens podem ser criadas a partir de coleções de fotos em diversos ângulos, inclusive pesquisadas na internet com base em tags. Os algoritmos do programa calculam a posição em que as câmeras estavam e vão formando uma espécie de mosaico até chegar ao desenho final em 3D.
O Virtual Earth Technology Preview (http://preview.local.live.com), por sua vez, permite navegar pelas ruas de Seattle e São Francisco de carro, observando a paisagem no pára-brisa. E vem mais por aí. “No futuro, vai dar para entrar num museu, ampliar as obras e até conferir o que as pessoas estão falando sobre elas”, diz Guilherme Stocco Filho, gerente de serviços de informação da Microsoft. Definitivamente, não há limites para as tecnologias de localização.
<p><a href="" rel="bookmark" title="INFO Online">A era do mapa</a>, Débora Fortes, edição de fevereiro de 2007 - SÃO PAULO - Bangcoc, Oslo, Jericoacoara? Pouco importa o destino. Há cada vez menos limites para os serviços de localização.
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